América Latina vive o retorno da onda vermelha?

0
120

Candidatura de Cristina Kirchner ao Senado argentino e avanço de Lula nas pesquisas para 2018 abrem debate sobre o retorno da esquerda no continente

 Cristina Fernández de Kirchner confirmou neste fim de semana sua candidatura ao Senado nas eleições legislativas da Argentina, previstas para 22 de outubro.

O anúncio sacudiu o cenário político argentino, uma vez que a carreira política de Cristina era dada como encerrada após a derrota de seu candidato a sucessor, Daniel Scioli, para Mauricio Macri nas eleições presidenciais de 2015.

Kirchner será candidata ao Senado pela província de Buenos Aires. Lar de 40% do eleitorado argentino, Buenos Aires é o mais importante colegiado do país. E é da capital argentina que vem a maior parte do apoio ao retorno da ex-presidente.

Para ter uma ideia da importância de Buenos Aires para as eleições, basta lembrar que Macri somente chegou à presidência após sua candidata à governadora da província, María Eugenia Vidal, vencer as eleições locais, derrotando o peronismo que dominava Buenos Aires desde os anos 1980.

Porém, a crise econômica que afeta a Argentina é especialmente sentida na área metropolitana de Buenos Aires. E os poucos resultados entregues por Macri contra a crise esgotaram a paciência do eleitorado, inflando o apoio a Kirchner. A própria ex-presidente pegou carona nessa insatisfação popular.

A estratégia do kirchnerismo é apresentar Cristina Kirchner como uma protetora do povo, ao estilo de Eva Perón. Atualmente, a principal pergunta nas favelas e bairros pobres de Buenos Aires, núcleo do peronismo, é: “hoje vocês vivem melhor ou pior do que quando Kirchner estava no poder?”.

A pergunta oculta o fato de a crise argentina já existir desde o final do último mandato de Kirchner, porém, ela seu impacto era menor devido aos subsídios do governo a setores essenciais, como a energia, por exemplo. Ao chegar ao poder, Macri cortou tais subsídios e prometeu uma retomada econômica. De fato, a economia começou a dar sinais de melhora. No último trimestre, ela cresceu 1%. No entanto, o percentual não teve um impacto na vida da classe média baixa, a mais afetada pela inflação, o aumento nas tarifas de luz, gás e transporte.

Os fracos resultados apresentados por Macri fortaleceram Kirchner. Após a derrota nas eleições, ela passou meses na Patagônia para recuperar sua imagem e para aguardar a persistência da crise abalar a de Macri. Ao que tudo indica, a estratégia funcionou. Prova disso foi a capacidade de Kirchner em juntar 25 mil pessoas no estádio do Arsenal, em Buenos Aires, na terça-feira, 20, quando anunciou seu novo movimento, a Unidade Cidadã, pelo qual vai concorrer ao Senado.

“Desorganizaram a vida da sociedade. Com eles não temos futuro. Voltou o fantasma do desemprego, a flexibilização trabalhista, temos preços e tarifas nas nuvens”, disse Kirchner, levando às lágrimas um público fiel, para o qual pouco importa as denúncias de corrupção e processos judiciais dos quais ela é alvo.

Se vencer, Kirchner se tornará a principal voz da oposição ao governo Macri, com fortes chances de vencê-lo nas urnas nas eleições de 2019. Tudo depende do sucesso ou fracasso de Macri em recuperar a economia nos próximos dois anos.

A volta da onda vermelha?

O ano de 2016 foi considerado um marco no fim da chamada “onda vermelha” na América Latina. Foi neste ano que os governos de esquerda que há mais de uma década governavam a região começaram a ruir.

Macri assumiu a presidência encerrando o kirchenismo; o chavismo perdeu as eleições legislativas na Venezuela; Evo Morales foi derrotado em um referendo para alterar a Constituição da Bolívia a fim de permitir que ele concorresse a um terceiro mandato; o economista Pedro Pablo Kuczynski foi eleito presidente do Peru, enquanto a candidata da esquerda, Verónika Mendoza, amargou o 3º lugar; e meses depois, Dilma Rousseff foi deposta, encerrando 13 anos de governo petista no Brasil.

Porém, nos últimos meses, a esquerda parece ter recuperado o fôlego. No Brasil, a aprovação ao governo de Michel Temer despencou para 7%, o mais baixo índice para um presidente desde José Sarney, em 1989. Em contraponto, Lula vem liderando todas as pesquisas de intenção de voto para a eleições de 2018. No Equador, Rafael Correa conseguiu eleger seu sucessor, Lenín Moreno. Na Bolívia, a aprovação de Morales ronda os 50%, uma das mais altas do continente sul-americano, e até o momento não há um rival consistente ao seu governo.

Diante disso, o retorno de Cristina Kirchner é apenas mais uma parte do cenário. Porém, vale lembrar que, historicamente, na política sul-americana nada é o que parece ser e tudo pode mudar a qualquer momento.

Sem comentários